Ateorizando a lombra (2016)

No final de 2016, o pessoal do Cinerama, da Escola de Comunicação da UFRJ, Daniel Santiso, Lorran Dias e Max William Morais, me convidaram pra escrever um texto pra Semana Cinerama daquele ano. Tinha como tema “(re) existir”. O catálogo tá aqui.

Senti uma vontade de mexer no jeito de escrever. Trabalhei dentro de uma estrutura numerada, jogando com ela, trabalhando pausas, sentidos e uma certa ritmia do fluxo do texto e das ideias. Pessoalmente, foi um texto que abriu uma certa vertente no que escrevo, mais solta e dinâmica, onde o sentido e o efeito geral vem da combinação de mais de uma camada. Acho que foi nele que escrevi a ideia de “impropriedade” pela primeira vez, e é uma palavra que me interessa cada vez mais.

De certa maneira – e acho que ali não era consciente – é uma tentativa de inclinar a escrita pro que Torquato Neto fazia magistralmente no jornal no começo dos anos 70. É sem dúvida uma das minhas leituras mais formativas. Fundamental mesmo. Mas, ali na lida, em 2016, não pensei nisso não. Queria só botar mais energia na escrita, jogar com a mancha gráfica, com oralidade e tudo mais. Não falar só sobre.

Agraceço o convite das amigas.

Aqui vai o texto original:

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Catadas as citações abaixo, começa o texto:

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“Ao invés de reconhecer e corrigir suas falhas fundamentais, [as elites] estão dedicando suas energias para demonizar as vítimas de sua corrupção, a fim de deslegitimar as queixas e, assim, se livrar da responsabilidade de resolvê-las de forma significativa. Essa reação serve apenas para reforçar a percepção de que essas instituições da elite são irremediavelmente egoístas, tóxicas e destrutivas e, portanto, não podem ser reformadas, devem ser destruídas. Isso, por sua vez, só assegura que haverá muitos outros Brexits, e Trumps, em nosso futuro comum.” (GG)

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e

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“Diante das obras inegociáveis de Nuno Ramos, a última coisa que eu penso é: “estamos fodidos”. E a primeira é “vamos nessa”, “vamoquevamo”, e outras expressões que nascem de um pessimismo sublimado, como uma gíria fresca, nova. São obras que versam sobre a abundância, não sobre a falta, problematizam o futuro como algo indeterminado, independente de otimismo ou pessimismo. Se será bom ou ruim, habitável ou respirável, pouco importa: há que ser novo, radicalmente novo. Não seria o grande desafio para o pensamento brasileiro das próximas décadas dar corpo a esse sentimento alienígena, não somente nas artes, mas também nas formas de vida, buscando problematizar constantemente a pergunta: como pensar o Brasil na abundância? (BO)”

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Hmmmmm

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“Se há caminho, este se constituirá a partir do delírio, da subjetividade, da leveza de uma posição singular, criativa e transindividual, de uma duração própria que pode se ramificar em outras atitudes e pensamentos. Não de uma ciência redentora, muito menos de uma ira santa apoiada na certeza das evidências. Ainda falamos de uma “gaia ciência”. (BO)”

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Quando tá escrito BO, vem daqui http://materialmaterial.blogspot.com.br/2014/06/pensar-na-abundancia-ou-poetica-da.html

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Quando ta GG, vêm daqui https://www.youtube.com/watch?v=A-XmzzgVqPM

Mentira

(Verdade)

Vem daqui https://theintercept.com/2016/11/09/democratas-trump-e-a-perigosa-recusa-de-entender-as-licoes-do-brexit/

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Bixo, bixa, eu não sei como fazer um cinema de re existência, uma arte insurgente, não sei mesmo. Espremendo, talvez, tenha umas pistas. Este texto tenta pistas.

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Por último: entender que a produção de arte, a reconhecida institucionalmente, advém de um bizarrice, que é ser produzida por um mesmo grupo e seus descendentes e correlatos, até que se entender isso como natural, primeiramente.

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Segundo, essa sempre foi uma ficção fraca.

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Sempre aconteceu outra coisa.

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Sempre.

Portanto, como sugestão: vamos à outra coisa:

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A citação que ta lá em cima alerta isso. Sem perceber e atuar a partir da distorção da ficção da centralidade, não vai rolar nada. O discurso da centralidade só me parece ser uma opção quando seu objetivo é suicida (obrigado movimento punk, vocês entenderam as coisas. E entenderam sem “entender”, o que nesse caso é melhor ainda. Objetivo perene: pensar com outras partes do corpo – cabeça é chifre e boné)

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A “outra coisa” no cinema sempre esteve e sempre está por aí: tem que botar ela pra trabalhar.  Nomear acho que adianta pouco. Porque uma pista que o texto do Bernardo lá em cima dá (vai no link e lê): a coisa, a outra, não vai ser individual. Essa re existência, vai ser de outro jeito.

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A sensação é que uma das forças disso é um vetor de impropriedade. Fazer o trabalho das artes, das experiências em geral, como um trabalho da impropriedade, do que não é próprio, apropriado, ou apropriador, apropriante: arte como trava língua, como lambida da língua presa. Jogar com uma afirmação de algo que escapa, escorre, esbanja e ostenta: ABUNDA.

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Não é a falta, ou a carência que manda. (Na verdade, pra isso, é preciso ter o que comer, e isso não pode ser esquecido, nunca – esse texto existe porque há o que comer por aqui –  e um note). A sensação é de que a fome não ajuda que se pense em outra coisa. Provavelmente, há um delírio da fome,  e ele é uma onda, o modo de vida dos que tem fome é de alguma maneira uma estética. Não precisa ter fome o tempo todo, pra intuir isso, mas há um modo de vida a ser explorado como forma e como estética. (Há uma escala da experiência que a fome, o delírio, alucinação e a idiotia sugere. Há outras.)

Um sinal forte é a música popular, o funk, especialmente. É visível ali o urdimento de um modo, que passa por uma figura poética que acho que rende, que é a figura do “delirante”, do “errado”, poderíamos dizer (faltou palavra melhor). Daí penso no MC Bin Laden, no MC Brinquedo  e toda uma poética construída em torno do que é, pelos olhos da centralidade, o que há de mais idiota. O problema é que a “idiotice”, como qualquer material, pode ser ritmado, intervalado, relacionado e se transformar em um trabalho, em uma ação de impropriedade. Pega daqui, imita, saca, faz bateria com a boca, boca com bateria, moto cantada, o tuim do lança, cinema sem câmera, filme sem imagem, um mundo reconstruído que não precisa dos guardiões da cultura e da civilização, não precisa da elite cultural (nada contra as canções do Chico, tudo contra seu uso corrente: TUDO).

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https://www.youtube.com/watch?v=g0WVh1D0N50

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A coisa passa por uma dobra, pegar o chicote do sinhô e virar do avesso e rebater.

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O escravismo como ética, como filosofia, se tornou um modo de vida, que dá a base da vida branca de um modo. O trabalho de percepção do escravismo é constante e exige atenção redobrada de todas. O bicho pega. E não larga. Acorrenta. Diz respeito a simplesmente quase tudo, à quem fala, como fala, quando fala, quem mascara, quem cumprimenta, que pode esperar pela utopia, que tem grana pra ser vegetariano, ou não, quem consegue pagar as contas pra ser cineastra, crítico. O escravismo, no Brasil, está sempre no jogo, e é um fenômeno, ou melhor, uma instituição fundadora, de uma ética, poderosa, silenciosa e gritona. Onde ele mais se sente à vontade é deitado sobre as boas intenções, sob cheirinho de consciência limpa, malandramente.

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Re existir é entender seu sistema e desfiá-lo com paciência.

Esse “re” é o “outro”, a “outra”, a “amante”. Um cinema menos “fiel”, um cinema mais “amante”.  Amante imanente.

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Sim, é preciso ampliar o cardápio de modos de vida. Gueto é uma estratégia temporária e não um norte, nem um sul. Quando solidifica, já era. Sem porta aberta, não passa nada. FURA PAREDE.

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No “Brasil diarréia” HO deu o papo: “o que importa: a criação de uma linguagem”: HO HO HO.

(Isto é: outra coisa.)

Não de “uma”, mas de “outras”, de todas. Invenção, isto é, trabalhar com o que tem, pra fazer o que não tem, sem ser propriamente “de” ninguém.

(Te vira)

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Dá pra ver: o impróprio: violentar o cinema, a cultura, para torná-los  eles mesmos, porque só existem como ato. Cinema é outro nome pra movimento. Movimento é outro nome pra tráfico. Tráfico é outro nome para “maximização de lucro dos negócios da família” (empreendedorismo), de um comerciante no Rio no século XX – só que de gente, vende gente, vem da gente.

Cinema tem tudo com isso. E não tem nada quase. Então é preciso, ou talvez seja bom, ou nem, talvez seja viagem: subir um exército de gifs, de memes, de não cinema, pra fazê-los respirar, ou aspirar qualquer coisa que produza sensação de vida, de movimento, mesmo que da morte como potência. Se o mundo morreu,  botaí a zumbizada pra dançar: vai e dá-lhes trabalho.

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Antes de tudo, o final:

Sugestões de lemas para um manifesto que nunca vem ou para a volta dos que não foram:

“Incontinência selvagem”

“Incorporação fabricante”

“Ética da confusão”

“Arminha ignorância swaga”

“A trapologia do ato”

“Santificação relativa da umidade”

“Colagem sensual”

“Mão no queixo”

Pra começo de conversa.

Dois minitextos de 2007: Tarachime (Naomi Kawase), Vers Mathilde (Claire Denis)

Conjunto de textos curtos escrito como parte da cobertura do festival É Tudo Verdade pro extinto Docblog. 

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A flor da pele

Tarachime(Naomi Kawase, Japão, 43′, cor, Beta digital, 2006)

Naomi Kawase é uma premiadíssima diretora japonesa cujos trabalhos dificilmente chegam por aqui. Bola dentro do ETV que trouxe seu filme mais recente, Tarachime, para a mostra Horizonte. Kawase já filmou a sua busca pelo pai que a abandonou na juventude, um perfil da sua vó Uno, e sua correspondência com o cineasta Hirokazu Kore-Eda. Kawase agora nos presenteia com esse pérola documental, onde ela narra o nascimento de seu bebê, a morte de  sua vó, e seu olhar de filha e mãe sobre todas essas intensas experiências – e sua relação com a natureza  e com o orgânico.

O foco de análise é o corpo: que envelhece, que gera, que definha, que floresce, que enruga, que morre, que acaricia, que nasce, que se acalma e que se explode. A câmera parece ser ligada umbilicalmente a Kawase, tudo é registrado, e assim tudo ganha vida, a partir de seu ponto de vista – até seu próprio corpo. Naomi filma o ciclo da vida a partir do corpo, da  pele, de si própria, de sua vó-mãe e de sua filha. É da profundidade da pele em película, que Naomi extrai seu olhar sobre os caminhos do tempo em nós.

Ultra-sons, ultra closes das peles, digital, super 8, várias texturas que algumas vezes beiram o abstrato, nos dão conta da íntima relação entre dar a luz, nascer e morrer. Numa perpsectiva que remete ao mestre japonês Yasujiro Ozu, Kawase amarra esses temas com muita delicadeza e precisão. Tarachime é um filme no limite. À todo momento, o doc fica a beira do mau gosto, do exposto demais, do meloso demais, do “experimental” demais, porém atravessa com altivez essas corda bamba. Esse retrato íntimo da experiência de viver através do corpo feminino comporta, na mesa proporção, violência e ternura, beleza e asco, exposição e ocultamento.

Delicado, visceral e arriscado, Tarachime é pequeno grande filme que preenche a gente tanto de morte quanto de vida – numa linda homenagem à arte morta-viva por excelência, o cinema. E assim, a vida continua.

 

 

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Quatro mãos

Em direção a Mathilde (Vers Mathilde, Claire Denis, França, 2005, 84min)

A dança e os cinema têm muitas  semelhanças: são artes  do movimento, no espaço e no tempo. Claire Denis e Mathilde Monnier fazem, nessa  obra de autoria conjunta, uma bonita prova da casamento dessas  duas  artes. As duas  tem posturas semelhantes  em relação ao seu ofício: gostam de  desorientar, de não deixar tudo claro, de fazer com o que o espectador chegue a uma conclusão só lhe alimentando com partes, deixando sempre um grau de indeterminação. “É preciso confundir”, diz Mathilde, numa frase que serve bem às  duas – como quase tudo o que se  diz nesse doc. A obra aqui é definitivamente conjunta.

Claire Denis é uma das cineastas que melhor filmam o corpo humano. Tudo que sua lente toca se carrega de sensualidade. Seu cinema é extremamente sensorial, suas imagens são carregadas dos sentidos do nosso corpo (principalmente o tato). Essa descrição cabe bem para a coréografa francesa Mathilde.

Trata-se de um encontro que se dá tanto dentro das imagens quanto na maneira de fazê-las. Quase nuca há cenas, seqüências, no sentido clássico. Há a força das partes, a força do corpo e de seus sentidos em cada plano, todo o mundo que invade pelas pontas dos dedos, pelos pés banhados pelo mar, Em Direção a Mathilde é um inventário sensorial – muito a  la Denis, porém um fidelíssimo retrato do estilo fragmentado e orgãnico de Mathilde. É poesia do espaço no tempo.

Quem controla os silêncios? (resposta a Daniela Thomas)

*Esse texto foi originalmente escrito em resposta ao texto de Daniela Thomas no site da Piauí. Não pude publicá-lo lá porque os responsáveis  acharam que seria justo que minha resposta fosse do tamanho do texto de DT. Acabei escrevendo outro, obedecendo ao limite proposto por eles, que está publicado no blog da revista em http://piaui.folha.uol.com.br/o-movimento-branco/ 

mascara escrava

O debate ao qual Daniela Thomas se refere em seu texto O lugar do silêncio está agora online quase na íntegra. A ordem de postagem dos vídeos está um pouco confusa mas, dado o interesse pelo fato, contamos com material para melhor perceber este momento que tocou a imprensa brasileira no 50º Festival de Cinema de Brasília.

Pela menção direta ao meu nome, resolvi publicar uma resposta ao texto e me ater mais ao acontecimento do que ao filme, sobre o qual já escrevi texto crítico para a Cinética, que cobre regularmente o festival desde 2006, ano de fundação da revista.

Foi a primeira vez que acompanhei todo o festival – ano passado, estive lá por dois dias – e, pelo que percebi, a edição que marca seu cinquentenário foi a primeira vez de muita gente. Durante o referido debate, numa cadeira próxima à de Daniela Thomas, estava Jéssica Queiroz, a primeira realizadora negra em cinquenta edições do festival a sentar em um debate da janela de maior visibilidade desse festival, como diretora do curta-metragem “Peripatético”. Na Folha – que hospeda este blog – Estadão ou outros grupos históricos de mídia, não vi menção a isso.

Já que a repercussão continua, estamos em tempo.

Apesar de me citar em seu texto, Daniela Thomas não menciona a crítica que escrevi sobre seu filme. Talvez não tenha lido. De fato, a Cinética não repercute tanto quanto os veículos que cito acima.

A narrativa de Daniela Thomas sobre o debate encontra eco em uma série de escritos sobre o festival, especialmente em publicações dos grandes grupo de imprensa que controlam a comunicação no Brasil há décadas.

Começo por Luis Zanin, do Estadão, que diz aqui: http://cultura.estadao.com.br/noticias/cinema,vazante-abre-festival-de-brasilia-aplaudido-porem-criticado,70002005138

“Um crítico chegou a aconselhá-la a não lançá-lo.” 

Depois, Inácio Araújo da Folha, que sequer estava presente no debate, repercute o comentário de Zanin:

https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2017/09/1921457-festival-de-brasilia-e-palco-de-embates-em-seu-50-aniversario.shtml

“O linchamento de “Vazante”, de Daniela Thomas (que causou polêmica pelo retrato da escravidão), talvez prove o estado de desrespeito da plateia em relação à arte e aos artistas: usam-se procedimentos inquisitoriais para criticar não os filmes, mas o que se julga serem posturas políticas. Não é raro sugerir cortes aos autores, ou até mesmo que o filme não seja lançado (caso de “Vazante”).

Nada mais parece importar, nos debates, além de reivindicações específicas: de negros, mulheres, homossexuais, classe média esquerdista idem etc. Sem julgar o valor ou a necessidade de sua luta, parece que o cinema ali só importa como veículos de propaganda. Voltamos aos anos 1930.”

Agora, José Geraldo Couto, do blog do IMS:

https://blogdoims.com.br/brasilia-e-o-cinema-proletario/

“Houve choro e ranger de dentes no 50º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, sobretudo nos debates dos filmes, em que afloraram com força desmedida demandas reprimidas durante séculos: dos negros, das mulheres, dos homossexuais. Talvez seja um desbordamento inevitável – e saudável –, mas o fato é que o cinema ficou muitas vezes em segundo plano nessas discussões permeadas por expressões como “lugar de fala”, “disputa de narrativas” e “protagonismo feminino (ou negro, ou gay) “

Recorro a estas narrativas – chamo narrativas porque as disputas sempre se dão também no campo estético e esse é meu ofício – porque noto a constituição de uma rede, bastante sólida, que evidencia uma estrutura de poder e discurso. Isso tem tudo a ver com o filme, isso tem tudo a ver com o festival, isso tem tudo a ver com o Brasil e com a atualização das desigualdades – e que aqui se expressam violentamente sobre o “falar”. O principal mecanismo de manutenção desse poder, é o de retirar as coisas do seu contexto e dessituá-las.
Foi minha primeira vez em Brasília, mas não em festivais. Trabalho com cinema e pensamento há mais de dez anos. E foi a primeira vez que vi alguém que dirigiu um filme, num espaço de debate – lugar de desdobramento do filme – optar por, além de  não expor elementos que permitam que o público conheça melhor as hipóteses de trabalho da obra,  adotar um ponto de vista que sugere renegar a crença do próprio trabalho. Diante dessa situação inusitada, reagi, por certo com alguma ironia. Estava perplexo com a postura inconsequente de uma artista experiente que decidiu narrar um episódio central na formação no nosso país e do nosso cinema. No texto publicado no blog da Piauí, Daniela Thomas se diz arrependida de ter pedido desculpas pelo filme, mas em seguida me recrimina justamente por ter reagido a este mesmo comportamento que, como ela, julguei absurdo. Como o filme de maior orçamento do festival, apoiado pela Globofilmes – e possivelmente amparado em sua produção com todos os meios para buscar sua consistência própria – é apresentado como algo a partir do qual se pede desculpas? Ao retirar, novamente, sua responsabilidade do debate, Daniela Thomas cria uma narrativa onde há consequências, mas não causas.

Frente a esta situação inédita, após fazer uma longa análise sobre a relação entre economia, escravidão e as sobrevivências destes processos, perguntei se ela tinha obrigações contratuais de lançar o filme, uma vez que se dizia arrependidade tê-lo feito desta maneira. Está gravado. Gostaria muito que vocês leitoras checassem os textos que cito e os vídeos que indico, e tomem vocês suas conclusões. Estamos em plena era do pós-fato, que vem se configurando como uma eficiente ferramenta de poder.

Assim como a estratégia foi tirar minha fala de contexto para me desautorizar, isso é feito com tudo ao redor. Não se fala de como era a composição da plateia no debate, não se fala da história do festival no diálogo entre estética e política, não se fala que estamos no Brasil – e que olhando aquele auditório parecemos estar na Noruega -, não se fala de quanto tempo o campo do cinema e dos festivais não se abriu verdadeiramente para discutir a questão racial – algo que se propaga justamente na dimensão do simbólico, dos discursos, do imaginário e, afinal, da imagem. Esse emergir, que pareceu inesperado a muitos, deveria ser motivo de felicidade para todos.

Entretanto, o tom geral é o da “contenção de ânimos”. Percebo isso como uma certa demanda por “civilidade”, especificamente em relação ao tal debate. Há um desejo de controlar o tom das falas, suas maneira de enunciar. Isso é ter como premissa o cumprimento das normas. Tanto as formas artísticas quanto as práticas sociais precisam ter como horizonte ético a desobediência. É somente por ela que se movimenta, e as formas que ela toma são necessariamente surpreendentes. Se estamos comprometidos com esse caminhar, é necessário saber dialogar com o porvir que não vai obedecer as regras que hoje gerem os jogos.

O que novamente me espanta é reolhar os vídeos e observar como o andamento geral do debate não foi nada fora do que já vimos historicamente em situações análogas. É claro que houve posicionamentos firmes, embates de ideias, vocês verão nos vídeos, mas o relato dos fatos surpreende ao caminhar em direção a uma poética descritiva de uma barbárie absoluta, incontrolável. Parte dessa construção se alimenta de uma polarização de negros contra brancos. Olhem a imagem. Procurem os negros. Observem a primeira pergunta. É feita por um homem branco, questionando a participação do elenco nas discussões criativas do filme. Ninguém repercutiu isso. Tá lá.

Na platéia havia poucas negras e negros, uma minoria. Era bem mais do que a média histórica, mas longe de ser um grupo de tamanho vulto. Em termos de paleta de cor, tendia ao homogêneo, como sempre. E o que se produz é uma rejeição baseada em variadas sugestões de incivilidade, que tem como efeito neutralizar as ideias ali postas. Abro esta narrativa para além do pessoal, além de Daniela Thomas, porque a narrativa dela e destes outros profissionais engrossa uma outra história muito mais antiga: negros são bárbaros, não sabem se comportar, não sabem as regras de etiqueta e discursividade. Não sabem o seu lugar, enfim. Essa narrativa é reivindicada justamente no momento histórico em que estes novos participantes estão começando a chegar, com séculos de atraso, ao debate público. Nesse processo, estamos todos envolvidos, e ele engloba forma, conteúdo, maneiras, estilos, matizes. Atravessa tudo: história da arte, da economia, dos genocídios, do cinematográfico, do gosto e muito mais.

O texto de Daniela Thomas parte de uma renovação caricata da narrativa colonial. Leiamos: ela inicia a partir de uma suposta aclamação de seu filme no continente europeu, na Alemanha. Esse episódio abre o relato e vai desaguar no desfile de barbaridades ocorrido aqui, em terras tropicais. Vocês já ouviram esta história?

O artigo também me surpreende pelo tom e escolhas. Mas ele casa muito bem com esse rede de textos que, como sabemos, possui uma escala de circulação majoritária. Pela escolha de palavras podemos observar: “força desmedida”, “desbordamento”, “reivindicações específicas”, “propaganda”, “linchamento”, “inquisição”, “censura”. Assim se cria e se alimenta um imaginário que, além de histórico, é presente. Historicamente produzido e reproduzido. E, se desejamos ampliar os horizontes na direção do desmonte das relações de desigualdade colonial, precisamos sair do domínio das capturas desse debate, que é urgente – mas que não pode acontecer nos termos de quem sempre pôde falar e calar. O “poder falar” tem história, e, como podemos concluir, ela é pouco visível.

Daniela Thomas vai lançar seu filme mês que vem, em novembro de 2017. Ouviremos falar de Vazante na parceira Organizações Globo e em todos os grupos que já citamos aqui. Falando de imagens, veremos as fotos de divulgação com corpos negros escravizados ao lado das últimas manchetes do dia. Nada nesse processo está em risco, por isso meu espanto à reação da diretora. Estamos falando de uma profissional que dirigiu a cerimônia dos jogos olímpicos há pouquíssimo tempo, que nos anos 80 já apresentava seus trabalhos para platéias na América do Norte. Seus filmes me foram mostrados em sala de aula, e por mim estudados várias vezes. Nas minhas prateleiras de livros sobre o cinema brasileiro, seu nome está confortavelmente espalhado, e há motivos para tal. Por isso me pergunto: onde está o risco de silenciamento? Onde estão os impedimentos para quem ocupa esse lugar?

A artista em questão fala no “direito de existir” da obra. Repito: “direito de exisitir”. Não é novela.  Ao final do tal debate, Luiz Zanin e a própria Daniela Thomas argumentam que, diante dessas demandas que eles identificam como “lugar de fala”, eles nunca poderiam trazer para seus filmes personagens que não fossem condizentes com suas identidades pessoais de gênero e raça. Zanin falou sobre ser homem e fazer filme sobre mulher, Daniela disse que, tivesse feito o filme do ponto de vista dos negros, seria “morta”. Dou exemplos específicos, mas essa lógica perpassa a maior parte das reações que tenho observado sobre a emergência deste debate, assim como a própria ironia que intitula o texto de Daniela (“lugar de silêncio”).

O jogo discursivo travado é o de inventar, supor, uma interdição. E os que supostamente interditam são especialmente aqueles que nunca teriam poder para tal. O estudo da história colonial nos mostrará como a marginalização da maior parte de nossa população se dá também pelo valor dado aos discursos de quem está subalternizado.

Esse processo, ainda aberto, está acontecendo há quinhentos anos. Não é culpa individual de Thomas de que a fala do africano não esteja legendada no filme. Essa fala nunca ocupou espaço de inteligibilidade. Essa legenda está aguardando há 500 anos. Este falar nunca foi feito “escutável”: não estudamos esse povo, esses idiomas, as instâncias de poder nunca consideraram isso um saber. A política colonial age apagando discursivamente. Apagando sobrenomes e marcando peles.

Olhando a platéia do auditório do Hotel Brasil 21 no Plano Piloto de Brasília, concluiu-se que pouco mudou na distribuição dos lugares onde um microfone  – que produz o que é escutável – circula. Isso tem tudo a ver com estéticas do som, com o tipo de frequência que divide o que é som e o que é ruído. A discussão é sim sobre os modos de expressão.

Intelectuais como Frantz Fanon e Achille Mbembe descreveram que o maior medo do rascista é justamente a reversão da violência contra si. A nossa sociedade produz um manancial de violência em larga escala há séculos, e quando essa violência – estritamente discursiva, no caso – busca uma redistribuição dentro do jogo social, todos os alarmes de quem sempre teve os privilégios de falar, circular, trabalhar, calar, todas essas campainhas, apitam em nome de uma “civilividade”. Civilidade essa que, se pareceu alguma vez existir, foi para funcionar fobicamente como barreira gramatical aos subordinados. Mesóclises não são necessariamente inocentes.

O que acontece agora de novidade e pede a participação ativa de todas, é somente a exposição deste processos históricos. A artista Grada Kilomba fala, por exemplo, das máscaras que tapavam a boca dos escravizados como técnica exemplar da ação do poder colonial. Isso não cessou. As bocas, esse tal ruído negro, estão esperando sua hora de falar há tempo demais. Todos nós temos a ver com esse processo, e ele forma uma ideia do “cinematográfico” que é historicamente produzida, dinâmica. Só se desmonta o colonialismo agindo sobre a distribuição de quem tem poder, de quem tem grana, de quem tem privilégio. E a história do cinema está profundamente ligada a isso: quem pode filmar, como filmar, quem consegue financiamento, quem vai pra festival tipo A.

À título de encerramento, destaco o trecho de abertura do ensaio “A crítica não indiferente” de Ismail Xavier, publicado recentemente no volume intitulado “Uma situação colonial?”:

“Paulo Emílio Sales Gomes foi sempre um intelectual com consciência aguda de seu “lugar de fala” e das suas circunstâncias. Sua atenção ao contexto social imediato em que estava inserido marcou, ao longo da vida, sua forma de interagir com o real e assumir projetos de caráter cultural e político em que se engajou.”

Seguindo por essa via, o “acontecimento” Vazante me parece exemplar do que o grande Paulo Emílio Sales Gomes descreveu como a tal “situação colonial”. É também lembrando o nosso maior crítico de cinema, tão fundamental ao Festival de Brasília, que trabalho para iniciarmos um debate verdadeiro sobre as assimetrias que nos fundam.

Drama é ação, movimento. Vazante expressa em cada grão da imagem somente imobilidade e manutenção do que ele convoca à baila. A performance hipnótica que quer nos colocar no ambiente perceptivo da elite decadente que protagoniza o filme acaba por não ser hipnótica o suficiente para provocar um estado intenso de alienação da experiência, e desagua em um meio termo perspectivo que faz todo o edifício da ficção ruir. E nesse sentido se mantém dentro de um padrão de gramática ficcional e ética, e assim reafirma o modelo em sua impotência envernizada, como afirmo em minha crítica na Cinética.

Tal impotência parece ter sido transformada em performance, voluntária ou não, pela diretora no tal debate. Por tudo isso, é necessário que a desobediência seja base da ética, para gerar movimento nesse presente radicalmente assimétrico.

Estranhamente, isso tudo pode ser uma oportunidade.

Está feito o convite.

Juliano Gomes

 

*Minha crítica do filme http://revistacinetica.com.br/nova/a-fita-branca/

Obs: Este texto é inspirado no pensamento de Jota Mombaça, em especial no artigo “Pode um cu mestiço falar” https://medium.com/@jotamombaca/pode-um-cu-mestico-falar-e915ed9c61ee