Texto sobre “Conversas no Maranhão” (Andrea Tonnacci/1983/117’/Brasil)

Publicado em março de 2008 no extinto DocBlog, editado por Carlos Alberto Mattos

conversas-no-maranhão

Documento de identidade

O diretor Andréa Tonacci fez em “Conversas no Maranhão”, um documento. Este doc apresenta a resposta dos índios Timbira à demarcação de terras (negada por eles) feita pela FUNAI em seu território de origem, no final dos anos 70, no município de Barra do Corda. Esta resposta foi encaminhada para as autoridades em Brasília também em forma de carta e gravação e filme. É um “documento oficial” da Nação Canela e de suas reivindicações no período. E a associação fundamental, entre filme, documento e realidade, que marca o cinema de não-ficção há mais de oitenta anos, ganha aqui uma interessante configuração.

Filmar índios, excluídos, “os que não tem voz”, sempre foi uma opção e questão clássicas pro documentário brasileiro, desde os tempos do Major Reis. Tonacci apresenta aqui uma vigorosa resposta de como se colocar em relação a este desafio de representar ou apresentar o “outro”.

O diretor não dá a câmera pro índios. E nem se “assume” como intermediário deste discurso, como mediador. “Conversas” nos faz sentir dentro daquela reserva e da vida dos Timbiras, através de longas seqüências de seus gestos, seus movimentos, sons e falas, também de suas eventuais interações com a “civilização”. O filme nos traz a “resposta” deste povo nos apresentando seu ritmo. A questão “índios x brancos” é colocada na nossa forma de se relacionar com o filme. Nós somos os estrangeiros ali, então, como se relacionar com isso, em que lugar podemos nos colocar?

As falas dos Timbiras, em sua língua local, nunca têm legendas, elas não tem tradução, não é possível uma tradução, e é preciso compreender e aceitar isso. “Conversas” quer nos mostrar outras formas de “fazer sentido”. É preciso se esforçar ou se deixar levar pelo filme, para “compreender”, para sentir a experiência e o absurdo pelo qual os Timbiras são submetidos pela lógica dominadora do Estado, que pensa a terra como mercadoria, como algo a ser explorado, quantificado. É contra este tipo de pensamento que o filme de Tonacci se insurge. Porém, não é um filme de negação, mas sim de afirmação, de uma ordem “outra”, sem começo, meio e fim, mas em forma de mantra, de cântico, de idas e vindas, de acúmulo ao invés de seqüência.

Assim, Tonacci dá uma valiosa contribuição ao documentário brasileiro, respondendo a uma de suas perguntas fundadoras. Mostra que, em primeiro lugar, é preciso mudar de lugar, para começar uma “conversa”, como espectador, como “homem branco” e aceitar a presença da alteridade, respeitá-la e aprender com ela. Em “Conversas”, o diálogo nunca se dá plenamente dentro do filme, é sempre truncado. Porque só um lado se esforça pra compreender. É sobre isso o filme de Tonacci, sobre como a conversa pode começar.

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