Dois minitextos de 2007: Tarachime (Naomi Kawase), Vers Mathilde (Claire Denis)

Conjunto de textos curtos escrito como parte da cobertura do festival É Tudo Verdade pro extinto Docblog. 

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A flor da pele

Tarachime(Naomi Kawase, Japão, 43′, cor, Beta digital, 2006)

Naomi Kawase é uma premiadíssima diretora japonesa cujos trabalhos dificilmente chegam por aqui. Bola dentro do ETV que trouxe seu filme mais recente, Tarachime, para a mostra Horizonte. Kawase já filmou a sua busca pelo pai que a abandonou na juventude, um perfil da sua vó Uno, e sua correspondência com o cineasta Hirokazu Kore-Eda. Kawase agora nos presenteia com esse pérola documental, onde ela narra o nascimento de seu bebê, a morte de  sua vó, e seu olhar de filha e mãe sobre todas essas intensas experiências – e sua relação com a natureza  e com o orgânico.

O foco de análise é o corpo: que envelhece, que gera, que definha, que floresce, que enruga, que morre, que acaricia, que nasce, que se acalma e que se explode. A câmera parece ser ligada umbilicalmente a Kawase, tudo é registrado, e assim tudo ganha vida, a partir de seu ponto de vista – até seu próprio corpo. Naomi filma o ciclo da vida a partir do corpo, da  pele, de si própria, de sua vó-mãe e de sua filha. É da profundidade da pele em película, que Naomi extrai seu olhar sobre os caminhos do tempo em nós.

Ultra-sons, ultra closes das peles, digital, super 8, várias texturas que algumas vezes beiram o abstrato, nos dão conta da íntima relação entre dar a luz, nascer e morrer. Numa perpsectiva que remete ao mestre japonês Yasujiro Ozu, Kawase amarra esses temas com muita delicadeza e precisão. Tarachime é um filme no limite. À todo momento, o doc fica a beira do mau gosto, do exposto demais, do meloso demais, do “experimental” demais, porém atravessa com altivez essas corda bamba. Esse retrato íntimo da experiência de viver através do corpo feminino comporta, na mesa proporção, violência e ternura, beleza e asco, exposição e ocultamento.

Delicado, visceral e arriscado, Tarachime é pequeno grande filme que preenche a gente tanto de morte quanto de vida – numa linda homenagem à arte morta-viva por excelência, o cinema. E assim, a vida continua.

 

 

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Quatro mãos

Em direção a Mathilde (Vers Mathilde, Claire Denis, França, 2005, 84min)

A dança e os cinema têm muitas  semelhanças: são artes  do movimento, no espaço e no tempo. Claire Denis e Mathilde Monnier fazem, nessa  obra de autoria conjunta, uma bonita prova da casamento dessas  duas  artes. As duas  tem posturas semelhantes  em relação ao seu ofício: gostam de  desorientar, de não deixar tudo claro, de fazer com o que o espectador chegue a uma conclusão só lhe alimentando com partes, deixando sempre um grau de indeterminação. “É preciso confundir”, diz Mathilde, numa frase que serve bem às  duas – como quase tudo o que se  diz nesse doc. A obra aqui é definitivamente conjunta.

Claire Denis é uma das cineastas que melhor filmam o corpo humano. Tudo que sua lente toca se carrega de sensualidade. Seu cinema é extremamente sensorial, suas imagens são carregadas dos sentidos do nosso corpo (principalmente o tato). Essa descrição cabe bem para a coréografa francesa Mathilde.

Trata-se de um encontro que se dá tanto dentro das imagens quanto na maneira de fazê-las. Quase nuca há cenas, seqüências, no sentido clássico. Há a força das partes, a força do corpo e de seus sentidos em cada plano, todo o mundo que invade pelas pontas dos dedos, pelos pés banhados pelo mar, Em Direção a Mathilde é um inventário sensorial – muito a  la Denis, porém um fidelíssimo retrato do estilo fragmentado e orgãnico de Mathilde. É poesia do espaço no tempo.

Texto sobre “Conversas no Maranhão” (Andrea Tonnacci/1983/117’/Brasil)

Publicado em março de 2008 no extinto DocBlog, editado por Carlos Alberto Mattos

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Documento de identidade

O diretor Andréa Tonacci fez em “Conversas no Maranhão”, um documento. Este doc apresenta a resposta dos índios Timbira à demarcação de terras (negada por eles) feita pela FUNAI em seu território de origem, no final dos anos 70, no município de Barra do Corda. Esta resposta foi encaminhada para as autoridades em Brasília também em forma de carta e gravação e filme. É um “documento oficial” da Nação Canela e de suas reivindicações no período. E a associação fundamental, entre filme, documento e realidade, que marca o cinema de não-ficção há mais de oitenta anos, ganha aqui uma interessante configuração.

Filmar índios, excluídos, “os que não tem voz”, sempre foi uma opção e questão clássicas pro documentário brasileiro, desde os tempos do Major Reis. Tonacci apresenta aqui uma vigorosa resposta de como se colocar em relação a este desafio de representar ou apresentar o “outro”.

O diretor não dá a câmera pro índios. E nem se “assume” como intermediário deste discurso, como mediador. “Conversas” nos faz sentir dentro daquela reserva e da vida dos Timbiras, através de longas seqüências de seus gestos, seus movimentos, sons e falas, também de suas eventuais interações com a “civilização”. O filme nos traz a “resposta” deste povo nos apresentando seu ritmo. A questão “índios x brancos” é colocada na nossa forma de se relacionar com o filme. Nós somos os estrangeiros ali, então, como se relacionar com isso, em que lugar podemos nos colocar?

As falas dos Timbiras, em sua língua local, nunca têm legendas, elas não tem tradução, não é possível uma tradução, e é preciso compreender e aceitar isso. “Conversas” quer nos mostrar outras formas de “fazer sentido”. É preciso se esforçar ou se deixar levar pelo filme, para “compreender”, para sentir a experiência e o absurdo pelo qual os Timbiras são submetidos pela lógica dominadora do Estado, que pensa a terra como mercadoria, como algo a ser explorado, quantificado. É contra este tipo de pensamento que o filme de Tonacci se insurge. Porém, não é um filme de negação, mas sim de afirmação, de uma ordem “outra”, sem começo, meio e fim, mas em forma de mantra, de cântico, de idas e vindas, de acúmulo ao invés de seqüência.

Assim, Tonacci dá uma valiosa contribuição ao documentário brasileiro, respondendo a uma de suas perguntas fundadoras. Mostra que, em primeiro lugar, é preciso mudar de lugar, para começar uma “conversa”, como espectador, como “homem branco” e aceitar a presença da alteridade, respeitá-la e aprender com ela. Em “Conversas”, o diálogo nunca se dá plenamente dentro do filme, é sempre truncado. Porque só um lado se esforça pra compreender. É sobre isso o filme de Tonacci, sobre como a conversa pode começar.