Circuitos de Segurança (sobre o cinema de Michael Haneke)

fkashtopo(Texto escrito para a Mostra dedicada ao cineasta, “A imagem e o incômodo: o cinema de MIchael haneke” em outubro 2011, na Caixa Cultural Rio.Este e outros textos estão disponíveis em http://www.mostrahaneke.com/2011/ensaios.html )
I
O cinema de Michael Haneke é marcado, desde seus primeiros filmes até
o recente “A Fita Branca”, por um desejo intenso de intervenção. O diretor,
que começa a dirigir nos anos 70 e lança seus longas a partir dos 80, faz uma
espécie de caminho inverso ao ressuscitar, ou dar uma nova matiz, ao desejo
de intervenção política mais direta através de seus filmes. Após a ressaca da
geração dos cinemas novos, Haneke instaura dentro do rol do cinema de
arte de circulação nos grandes festivais, uma espécie de revival de um desejo
de encenar “a sociedade” e seus macroproblemas de uma maneira bastante
frontal e sem nenhum receio de suas premissas. Não há aqui falsa modéstia
ou ambições medianas nas suas representações. O artista toma para si a
função de agente diagnosticador de um estado de coisas que se apresenta
deteriorado em todas suas instâncias: afetivamente, economicamente, moralmente,
politicamente.
Poderíamos resumir a ideia de sua obra na ideia de que o mundo está
mal, não se sabe o que fazer, algo se perdeu e não se encontra nenhuma
solução para isso. A partir dessa situação, o artista expõe as peças desse sistema
(palavra essencial para seu cinema), menos para obter uma solução
do que observar seus funcionamentos. Há uma espécie de “supervisão” que
aqui está em curso, um exame. As palavras da ciência e da justiça se aplicam
então com justeza, na medida em que a solução que se procura trata da ordem
dos enunciados. Os indícios são de que há alguma doença, um estado
patológico, que se espalha entre um conjunto de relações, seja ele mínimo
(Funny Games) ou dilatado (Código Desconhecido, 71 Fragmentos). Há algo
que se instaurou numa situação que se supunha estável e que não cessa de
gerar uma degeneração que vai levar à morte.
O famoso “mal-estar” provocado por seu cinema vem do estabelecimento
dessa condição degenerada como ponto de partida e que os filmes
só vão tratar de destrinchar mais e mais, intensificando-a narrativa adentro.
Essa condição também se produz na forma narrativa que sempre se alimen-
ta de lacunas. Há sempre uma parte que falta no jogo. A indeterminação em
seus enredos, entre as conexões das cenas é um dos seus principais princí-
pios dramatúrgicos. Daí, muitas vezes serem obras que colocam sua maneira
de narrar, sua estrutura, como parte essencial da matéria do filme. Em
boa parte dos seus filmes, a estrutura, o modo narrativo, é parte essencial do
enredo (Vídeo de Benny, 71 Fragmentos, Cachê, Código Desconhecido, Funny
Games). Assim, a presença de fitas de vídeo, imagens da TV (especialmente
telejornais, mas não só) e circuitos de segurança, adensam a análise de Haneke
colocando o estatuto da imagem como parte essencial deste estado de
coisas que tende à desagregação e ao descontrole.
II
A forma fragmentada é justamente o índice dessa desagregação que atinge
as personagens e os espaços em seus filmes. Há partes espalhadas que se conectam
no filme, mas que parecem não se encaixar. E quando se encaixam é
para catalisar uma desagregação ainda maior ou algum tipo de desastre, seja
físico ou moral. Haneke vai montar e estruturar boa parte de seus filmes
como partes soltas de algo que é maior que o filme. O que está em jogo
excede a imagem, parece dizer, e o que se tem aqui é o pouco que resta, a
porção possível. E essa violência inicial, entre coisa e representação é fundamental
aqui.
No fundo, Haneke é um artista da unidade. Sua melancolia raivosa clama
por um estado onde as partes tinham conexão, onde os painéis tinham
comunicação, assim como as figuras. Isto é claro no filme “71 Fragmentos
de uma cronologia do acaso”, onde o “acaso” é um mecanismo para uma
ordenação bastante precisa. Tal cronologia nunca “erra”, no sentido de não
acertar nos pontos fortes, e nunca vaguear, nunca seguir trilhas que não fechem.
Os pontos de cortes abruptos, que não respeitam as ações dentro dos
planos, interrompidos, não param de evidenciar que há algo que não respeita
a unidade, a integridade e a integração. Este modelo não é mais possível –
portanto, existe, e parece, ou parecia mais ajustado para o desenvolvimento
de uma sociedade. A forma do filme, das cenas, não vai deixar que a ação se
encerre, ela precisa ser interrompida, ser colocada em suspensão.
Tal efeito de interrupção é justamente a chamada pela ação, de quem vê.
Daquele para quem o sádico de Funny Games pisca. O espectador só tem
duas opções: ou é cúmplice (sim, outra palavra da Justiça) ou age. Dentro
de sua já citada dimensão de autocomentário, é notável a presença de personagens
cúmplices em Cachê e A Fita Branca, por exemplo. Em seu telefilme
Três Caminhos para o Lago, assim como em Código Desconhecido, a figura do
fotógrafo é questionada em relação a seu papel de cúmplice do mal, do sofrimento
alheio: “teu trabalho é só provocativo, para quê precisamos saber
disto? Você acha que se você não tirar essas fotos o mundo não vai saber o
que acontece?” E o fotógrafo, diz: “Pode ser que você esteja certa, mas é só
isso que eu sei fazer, eu não tenho a chave de decifração para os problemas
do mundo, eu só constato os defeitos”.
Uma primeira ambiguidade se instala em relação à função da obra, da
imagem e do espectador. Constatar é perceber uma verdade, e essa parece
ser aqui a função do trabalho do diretor, travestido de personagem. Entretanto,
esta tomada de conhecimento está direcionada para o olhar daquele
que pode agir, que pode fazer sua interpretação do jogo entre as partes. É
preciso que ele faça algo. Há alguma coisa por trás, há um causa para estes
efeitos, algo escondido (cachê), por trás da porta, por trás do filme, por trás
do mundo, que precisa ser descoberto. Daí a urgência de uma mise-en-scéne
que não permite rodeios ou digressões. Há um sistema que precisa ser eficiente,
que precisa funcionar, cujas partes precisam se relacionar de maneira
incisiva pra que se produza o choque.
III
A admiração pelas máquinas (meios de transporte, máquinas de imagem,
entre outras) é por uma espécie de identificação. O filme não cessa de nos
lembrar de sua condição de produção, de produto, de artefato e artifício:
a qualquer momento pode se interromper ou mesmo rebobinar. Há uma
combinação muito engenhosa para que as partes se combinem, para que
apresentem elementos comuns, trações que as ligam, porém nunca de forma
totalmente regular. Máquinas que só funcionam com peças originais.
Não há espaço para gambiarras, fios soltos, ou qualquer elemento que não
seja de fábrica. A cada filme, um conjunto delimitado. O anti road-movie,
por excelência. A estrada aqui é somente outro lugar de ligações por onde a
linha do circuito vai passar no sentido de fechá-lo cada vez mais (em relação
ao tema, clima da cena, e função na narrativa). É necessário então estabelecer
um universo, um conjunto de elementos limitados para perceber seu
funcionamento observando-os, seguindo método científico, para daí tirar
conclusões do meio maior, de onde os elementos vêm, e onde a relação obedece
aos mesmos princípios. Diante da ameaça do descontrole, o controle
da encenação, do foco direto nas partes, na combinação de espaços desconectados
para compor um painel justo. Máquina é o que não se reconfigura,
é o que reproduz, enfim, o que representa. A máquina duplica, coloca em
movimento, mas não pode se reconfigurar por si só. Ela repete a si própria,
a sua programação que a antecede. Os circuitos complexos de Haneke, mesmo
se não vemos seu motor central, o seguem cegamente. Estão ali conjuntos
claros: conflito étnico na Europa, crise moral, encenação e estetização
da violência, e outros grandes enunciados do dia. A habilidade do diretor
austríaco é conseguir dar pujança emocional a esta plêiade de enunciados
que estampam nossas manchetes. Seu risco é justamente o de ser reduzido
à sua própria tese, e assim, encerrar-se nela, girando em círculos, circulando
em vão.
A principal “doença” seria então esta dificuldade de reconfiguração das
premissas. A sociedade está doente, vê-se por esta amostra, por este conjunto
e suas colisões. Mas o experimento, o olhar, condiciona os resultados.
As evidências correspondem justamente às hipóteses que a originaram. Talvez
seja necessário questionar o estatuto da evidência indagando sobre a
validade da pergunta ou do raciocínio que guiou o experimento. Isto é, por
exemplo: podemos falar de sociedade européia hoje, de que tipo, a que este
conjunto responde? Este conjunto, como outros são criações, traçados que
se produzem como as análises que o sucedem e originam. O plano final de
Cachê talvez indique esta possibilidade, de começar de novo, de partir para
outras bases, ainda não se sabe quais, mas a intervenção que se deseja ali é
do olhar, de sua reconfiguração, de esforçar-se para ver o que está não atrás,
mas dentro do quadro, a nossa frente.
IV
A melancolia, a fúria, ou o mal-estar de Haneke, que nos atravessa na experiência
de seus filmes, é causada justamente pelo fracasso de uma união.
Os laços entre as personagens estão degenerados: família, casal, trabalho,
moral. Estas instâncias de agregação já não funcionam como tal, mas como
seu contrário. Não há ali nada que seja vivo, que pulse ou se reproduza em
uma nova ordem, harmônica e orgânica (oposta à maquínica).
Uma dessas uniões é com o espectador. A violência é um problema na
imagem, pois ela é espetacularizada, tornada falsa, tornada prazer e cegueira.
Este seria seu problema, e neste lugar onde seríamos cúmplices, onde cometemos
nosso crime, sem fazer nada, e justamente por isso. Ela é espetáculo
no sentido de que ela falseia a experiência “real” do violento. A tarefa então
seria restituir essa sensação do antigozo com a violência. O espectador se
separou da obra nos domínios do espetáculo, ele se “alienou”, afastou-se e
satisfez-se com as aparências. Para retomar o caminho de uma harmonia
desse conjunto é preciso estabelecer uma relação onde possa haver virtude,
onde a sociedade se enxergue de forma justa e assim reproduza essa justiça.
Levado ao paroxismo, o exercício ambíguo e pungente de Haneke leva a
uma contradição permanente: a imagem engana, impede de agir e falseia o
mundo, pois só nos apresenta partes, partes insuficientes, fragmentadas e
editadas. Entretanto é de imagens que vive esse discurso que não cessa de
se autocriticar.
Paradoxalmente, Haneke está mais próximo da espetacularização, da
exploração da imagem como plasticidade e como criadora de um mundo
autônomo do que se possa imaginar. Seu talento de encenador do colocar
em cena, é de justamente perceber estas regras do mundo das formas e jogar
com elas. Não é denunciando seu próprio jogo fundador que se vai reverter
a inevitável derrocada, mas sim percebendo que cada jogo tem suas regras,
suas entradas e saídas, e que elas podem sempre levar a um outro lugar. A
cada remontar de peças, um novo sistema pode surgir. E o olhar do espectador,
esse suspeito, é o lugar também de uma seleção e um recomposição
permanente. O que acontece na obra, assim também o faz no olhar, naquele
que vê, toda sua multiplicidade de ligações e recombinações e daí, por montagem,
como nos lembram os filmes de Haneke, o novo pode ter lugar e
recompor o meio, e causar diferença e não repetição. Aquele que olha, aquele
que age, aquele que fotografa, não cessam de fazer parte de um mesmo
processo, vital, de remontagem e de criação de novos jogos.
Em toda engrenagem há brechas, defeitos, afrouxamentos. O filme então,
de alguma maneira encena um conflito com a visão que tem de si mesmo,
configurada nas imagens-dentro-de-imagens que Haneke não cessa de
encenar (em menor evidência em A Fita Branca e A Professora de Piano).
Se há aí um jogo marcado, que não cessa de reproduzir o que o precede
(crença do jornalismo, da imagem como prova, do circuito de vigilância),
é preciso que ele se auto consuma e vire então do avesso, nem avançando
nem rebobinando, mas se abrindo, permitindo-se ser outro, e, através da
imagem, reconfigurar-se. Assim como em Brecht, observa-se uma distância
entre seus mecanismos anti-ilusionistas (que querem acabar com a arte que
aliena, que desvia a comunidade de si mesma) e, digamos, a “fala das obras”.
No sentido de que sua multiplicidade ultrapassa o objetivo de autodesnudamento
anti-ilusionista para nos apresentar a convivência de várias partes
heterogêneas e recompostas que não param senão de reproduzir um outro
mundo com suas próprias regras, e que se incorpora imediatamente a este,
sem o condicionar, mas habitando-o. A arte não produz relação direta, de
equivalências, mas dissensual. Essa possibilidade da desconexão, mais do
que a nostalgia do laço perdido, é onde a intervenção pode nascer. E aí, sua
função política adquire um caráter outro que não o da representação de um
estado de coisas do mundo, mas um estado híbrido da obra que permite que
nasça um mundo outro, ao lado de outros mais, mas a partir de novas bases.

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